Pioneiro · Igreja Metodista Livre no Brasil
Massayoshi “Daniel” Nishizumi · 1928 – 1946
O pastor japonês que, movido pela fé e sem nenhuma garantia senão a providência de Deus, atravessou o oceano para anunciar o Evangelho aos imigrantes — e plantou no Brasil a Igreja Metodista Livre.
“Partia rumo ao outro lado do planeta, pela fé, levando consigo somente o seu coração maravilhosamente aquecido.”
Quem foi
Em 1928, vendo tantos conterrâneos emigrarem para o Brasil, o jovem pastor Massayoshi Nishizumi resolveu vir também — para anunciar o Evangelho aos japoneses que trabalhavam nas lavouras de café do interior de São Paulo e do Paraná.
Naquele momento, nem a Junta Missionária americana nem a Igreja no Japão podiam oferecer apoio financeiro. Impelido pelo Espírito Santo, Nishizumi resolveu vir por conta própria, contando apenas com as orações de alguns amigos e com a fé na providência divina. Não havia nenhuma outra garantia.
Daquele começo pequeno e improvável — três pessoas dispostas a servir — nasceu a Igreja Metodista Livre do Brasil, que hoje se espalha por todo o país. É a história de uma vida que confirmou, na prática, que “nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Co 3.7).
Raízes
Quando Teikiti Kawabe, um japonês aventureiro de 22 anos, aportou em São Francisco em 1887, a herança do “coração maravilhosamente aquecido” já o aguardava na Igreja Metodista Episcopal. Convertido, tornou-se um incansável evangelista de seus patrícios que construíam a estrada de ferro por Washington, Idaho e Wyoming.
De volta ao Japão com a herança wesleyana, Kawabe associou-se à Missão Metodista Livre e, aproveitando a Exposição da Indústria Nacional em Osaka, promoveu uma grande campanha de evangelização. Dali nasceu a Primeira Igreja Metodista Livre de Osaka.
Foi dessa igreja que saíram, rumo ao Brasil, os pastores Nishizumi (1928), Hayashi (1934), Shimizu (1938) e Ono (1939) — batizados por Kawabe e herdeiros do seu espírito missionário.
A conversão
Eva Bryan, de Indiana, entregou o coração a Cristo aos onze anos, numa atividade da Igreja Metodista Livre em 1898. Preparou-se para ser missionária, formou-se enfermeira, casou-se com o pastor Roy Millikan e partiu para Kobe, no Japão. Não imaginava o paciente singular que Deus lhe enviaria.
Certo dia, um jovem de aparência sofrida — tuberculoso, fumante inveterado, expulso da própria família, com cerca de 20 anos — bateu à sua porta pedindo comida e emprego. Naquele tempo, a tuberculose era tida como incurável, e o doente, marginalizado. Ainda assim, Eva e Roy o acolheram no convívio familiar, onde já criavam oito filhos.
Quando o jovem Massayoshi perguntou por que o haviam recebido com tanto amor, arriscando os próprios filhos, a missionária lhe falou do amor de Jesus. Ele reconheceu que, dentre tantos deuses, havia um único Deus vivo, e aceitou a Cristo como Senhor.
Após um ano de convívio e cuidado, estava livre do cigarro, curado da tuberculose e restaurado por dentro e por fora. Como Saulo recebeu um novo nome, seus pais adotivos passaram a chamá-lo Daniel: era uma nova criatura em Cristo (2Co 5.17).
“Esteja preparada!” — foi a voz de comando que Eva ouviu quando menina, e que a levou até o Japão, onde Deus lhe confiaria um filho na fé.
“Da mesma forma que Saulo recebeu um novo nome, seus pais adotivos o chamavam de Daniel.”
Da biografia de Daniel NishizumiO chamado e a travessia
Com o coração aquecido, Daniel consagrou-se ao ministério e ingressou no curso teológico Osaka Seisho Gakuin. Justamente no ano de sua formatura, 1928, tomou conhecimento da carência de missionários entre os emigrantes que partiam para o Brasil.
A convicção encheu-lhe a alma: deveria anunciar as boas-novas àqueles japoneses. Contou apenas com as orações de irmãos e com a oferta suficiente para comprar uma passagem de ida. Nenhuma outra garantia, a não ser a fé na providência divina — como Abraão, que “saiu sem saber para onde ia” (Hb 11.8).
Na primavera de 1928, quando partia com uma leva de emigrantes, estavam no porto o casal Millikan, duas de suas filhas e poucos amigos. Uma grande emoção encheu o coração de Eva: seu “filho adotivo” seguia rumo ao outro lado do planeta, levando consigo somente o seu coração maravilhosamente aquecido.
A fidelidade do Senhor levantou dois leigos extraordinários para sustentá-lo: Wada, de 70 anos, e Choh Koh Choh (Mita), de 18. A partir desse pequeno grupo de três pessoas teve início a história da Igreja Metodista Livre do Brasil.
Os primórdios
Ainda em 1928, Nishizumi foi ordenado diácono pelo Superintendente Kawabe, em Osaka, antes de lançar-se de vez à obra no Brasil.
Chegando à terra nova, o sustento veio do trabalho e do sacrifício. Wada, próspero comerciante, apesar dos 70 anos, cultivou a terra, plantou verduras e frutas e entregava todo o seu ganho a Nishizumi. O jovem Mita aplicou-se do mesmo modo na lavoura. E o próprio pastor passava horas embaixo da máquina seletora de café, fazendo manutenção para ganhar alguns trocados a mais para o trabalho missionário.
Antes mesmo dele, em 1927, já viera outro metodista livre japonês, o colportor Yoshitaru Fujita, da Sociedade Bíblica do Japão. Aos poucos, o Senhor foi ajuntando obreiros para a seara.
A fundação — 1º de novembro de 1936
Em 1934, o metodista livre Hiroyuki Hayashi chegou ao Brasil com a família e, depois de contrair malária na Amazônia, fixou-se em São Paulo como dentista. Por “coincidência”, recebeu certo dia como cliente o próprio Daniel Nishizumi.
Naquele momento, o pastor estava desanimado. Sem o apoio de seus superiores, já não tinha tanta convicção de organizar uma igreja. Foi preciso muito tempo de oração e a insistência amorosa do Dr. Hayashi para que a obra tomasse forma.
Enfim, em 1º de novembro de 1936, as famílias metodistas livres japonesas — Yamada, Katayama, Maruyama, Watanabe — e os missionários iniciaram oficialmente o trabalho, no refeitório do consultório do Dr. Murakami, à Rua Conde de Sarzedas, 40. Assistiram ao primeiro culto 21 pessoas. A partir dali, Deus foi abençoando, e muitas vidas foram ganhas entre os imigrantes.
Em 1935, Nishizumi conhecera o pastor José Emílio Emerenciano, da Igreja Holiness, e os dois se tornaram grandes amigos. Emerenciano — que falava inglês e japonês — passou a acompanhar como intérprete os encontros com os missionários americanos. Em 1940, visitas da liderança da Missão traçaram planos para alcançar também os brasileiros; a igreja tinha então 60 membros. Veio a Segunda Guerra, e os projetos ficaram parados. Em 1945, só entre japoneses, já eram 80 membros.
A partida — 26 de junho de 1946
Terminada a guerra, em 1946 a obra ganhou novo impulso: o Bispo Ormiston retornou ao Brasil e, em junho, chegaram as missionárias Lucile Damon e Helen Voller para ajudar a organizar o trabalho entre os brasileiros.
Foi em meio a todo esse movimento que ocorreu a súbita morte do Rev. Massayoshi Nishizumi, atropelado ao descer do bonde, no dia 26 de junho de 1946. Como o grão de trigo que cai na terra e morre para dar muito fruto (Jo 12.24), ele partiu sem ver a colheita — mas a semente estava lançada.
Poucos meses depois, em 7 de setembro de 1946, começou na casa do Pr. Emerenciano o trabalho metodista livre entre os brasileiros. A obra que Nishizumi implantara não parou: ela floresceu.
Cronologia
Teikiti Kawabe converte-se nos EUA e leva o metodismo livre a Osaka.
Acolhido pela missionária Eva Millikan, é curado e recebe o nome “Daniel”.
Forma-se em Osaka, é ordenado diácono e parte para o Brasil (05/08).
O trio sustenta a missão com o trabalho na lavoura de café.
1º de novembro: primeiro culto com 21 pessoas, à Rua Conde de Sarzedas, 40.
Apesar da guerra, a obra entre os japoneses cresce.
26 de junho: morte de Nishizumi. Em 7 de setembro, começa o trabalho entre brasileiros.
A semente plantada em 1928 amadurece numa denominação nacional.
Legado
O que começou com um pastor e dois leigos, em 1928, tornou-se uma família de igrejas espalhada pelo Brasil.
Da fundação em 1936, o trabalho foi organizado como Campo Missionário e depois como Concílio Missionário Brasileiro (1948). Com o crescimento, formaram-se o Concílio Nikkei e o Concílio Brasileiro, e a obra atravessou o país. Em 2003, a Igreja Metodista Livre do Brasil consagrou o seu primeiro bispo nacional — sinal maduro daquela semente lançada pela fé.
Nishizumi implantou a Igreja em 1º de novembro de 1936 e lutou, até a morte, para que o Evangelho alcançasse também os brasileiros — o que se cumpriu em 7 de setembro de 1946. Desde então, a IMeL do Brasil tem crescido, passado por lutas e alcançado grandes vitórias pela bênção de Deus. É a prova viva de que “eu plantei, Apolo regou, mas o crescimento veio de Deus” (1Co 3.6).
Reflexão pastoral
Nishizumi partiu com uma passagem de ida e a confiança na providência de Deus. A obediência ao chamado não espera todas as seguranças (Hb 11.8).
Eva Millikan, Wada, Mita, Hayashi, Emerenciano — a obra floresceu por muitas mãos. O Reino é sempre parceria (1Co 3.5–9).
Ele morreu sem ver a colheita, mas a igreja floresceu. O grão que cai na terra dá muito fruto (Jo 12.24).
Galeria
Clique para ampliar. Fotografias do acervo histórico da Igreja Metodista Livre.



